📰 Fonte: Supply Chain Mag
Do Estreito de Ormuz a Bab el-Mandeb, a pressão simultânea sobre dois dos principais pontos de passagem do comércio marítimo ameaça redesenhar os fluxos globais de mercadorias e energia. Fernando Cruz Gonçalves, professor na Escola Superior Náutica Infante D. Henrique, analisa as alternativas logísticas disponíveis, os custos desta reconfiguração e os limites de cadeias de abastecimento construídas para maximizar a eficiência, mas nem sempre preparadas para resistir a várias crises em simultâneo.
Durante os últimos anos, a instabilidade no comércio marítimo tem sido analisada através de crises sucessivas, quase sempre tratadas como acontecimentos independentes. A pandemia, o bloqueio do Canal do Suez, a guerra na Ucrânia ou os ataques no Mar Vermelho foram encarados como episódios distintos, cada um com impactos específicos sobre as cadeias de abastecimento. No entanto, a realidade atual parece marcar uma mudança de paradigma.
Pela primeira vez em muitos anos, dois dos principais pontos de estrangulamento (“chokepoints“) do comércio marítimo mundial enfrentam simultaneamente níveis elevados de tensão geopolítica. Esta coincidência aumenta significativamente a vulnerabilidade das cadeias logísticas globais, uma vez que reduz a capacidade de desviar fluxos comerciais sem custos económicos relevantes. O problema deixa, assim, de ser apenas regional para assumir uma dimensão verdadeiramente global. Neste contexto, importa analisar os acontecimentos recentes numa perspetiva sistémica e não apenas regional.
Mais do que analisar isoladamente cada foco de instabilidade, importa compreender a interação entre ambos e o efeito cumulativo que produzem sobre o transporte marítimo, os mercados energéticos e a confiança dos operadores económicos. A combinação destes fatores traduz-se em maiores tempos de trânsito, aumento dos custos de transporte, pressão sobre os seguros marítimos e maior volatilidade dos mercados internacionais.