📰 Fonte: Supply Chain Mag
A sustentabilidade não representa uma mudança de rumo para a logística, mas uma evolução natural da eficiência operacional. José Guilherme Tavares, diretor corporativo do Grupo ETE, defende que a descarbonização começa muito antes da adoção de novas tecnologias: começa na eliminação do desperdício, na utilização inteligente dos recursos e nas decisões tomadas diariamente ao longo das operações.
Durante muito tempo, a logística foi encarada sobretudo como uma função de suporte, responsável por garantir que os produtos e as matérias-primas chegavam ao local certo, no momento certo e ao menor custo possível.
Contudo, a crescente instabilidade dos mercados, a pressão sobre os recursos naturais, a escalada dos custos energéticos, o reforço das exigências regulamentares e a valorização das questões ambientais por parte dos consumidores transformaram profundamente esta visão.
Hoje, a logística ocupa um lugar central na estratégia das organizações. A sua influência estende-se muito para além do transporte e da armazenagem, abrangendo a resiliência das cadeias de abastecimento, a eficiência na utilização dos recursos, a capacidade de adaptação à mudança e a criação de valor sustentável. O que outrora era visto como uma atividade operacional é agora reconhecido como um dos principais fatores de competitividade.
Esta transformação resultou, em grande medida, de uma nova forma de compreender a relação entre sustentabilidade e desempenho logístico. No passado, estes conceitos eram frequentemente apresentados como se servissem objetivos distintos: a eficiência procurava reduzir custos, enquanto a sustentabilidade se concentrava na redução dos impactos ambientais. No entanto, a experiência demonstrou que esta divisão é muitas vezes artificial e que, em ambos os casos, o princípio é o mesmo: utilizar os recursos disponíveis de forma mais inteligente, eliminando desperdícios, aumentando a produtividade e criando mais valor com menos recursos.
Sempre que uma organização reduz desperdícios, está a diminuir consumos, custos e emissões. Sempre que aumenta a produtividade, está a extrair mais valor dos recursos que utiliza. E, quando melhora os seus processos, está simultaneamente a reforçar a competitividade e a reduzir a pressão sobre o ambiente. No fundo, a sustentabilidade não surge como uma alternativa à eficiência; surge como a sua evolução natural.
Quem trabalha diariamente na logística sabe que os ganhos mais significativos raramente resultam de uma única decisão. São, antes, o resultado de uma sucessão de melhorias operacionais que, acumuladas ao longo do tempo, produzem resultados consistentes.
Vejamos alguns exemplos práticos: uma rota redesenhada, uma carga mais bem consolidada, a utilização de um equipamento mais eficiente, uma deslocação evitada ou até um tempo de espera eliminado. Muitas outras oportunidades poderiam ser identificadas, mas, na realidade, cada uma destas melhorias representa um pequeno avanço que, quando multiplicado por centenas ou milhares de operações, se transforma num impacto relevante na rentabilidade e na sustentabilidade de qualquer organização.
É precisamente aqui que reside uma das principais oportunidades do setor. O desperdício continua a ser um dos maiores inimigos da competitividade. Sempre que uma viatura faz uma deslocação adicional devido a um mau planeamento, está a consumir recursos sem criar valor. Quando uma operação de transporte de carga é executada abaixo da sua capacidade ótima de ocupação, existe potencial desaproveitado. Da mesma forma, sempre que um armazém utiliza mais energia do que a estritamente necessária, existe um custo oculto que compromete a eficiência global da operação.
Por isso, acredito que, para a logística, a sustentabilidade começa exatamente quando se questiona aquilo que efetivamente acrescenta valor. Esta visão ganha particular relevância quando analisamos o tema da descarbonização.
Grande parte do debate sobre a descarbonização na logística tem-se concentrado, legitimamente, nas novas tecnologias, nos combustíveis alternativos e na eletrificação das frotas e dos terminais. Estas medidas têm já um papel importante no presente e terão certamente um papel ainda maior no futuro das cadeias de abastecimento. Contudo, existe uma questão anterior a todas elas: estamos a utilizar os nossos recursos da forma mais inteligente possível?
O transporte de mercadorias mais sustentável nem sempre é aquele que utiliza a tecnologia mais avançada. Muitas vezes, é simplesmente aquele que evita movimentos desnecessários, maximiza a utilização dos ativos disponíveis e reduz desperdícios ao longo de toda a operação.
Antes de substituir combustíveis, eletrificar frotas ou investir em novas tecnologias, existe uma pergunta fundamental que deve ser colocada: esta atividade é realmente necessária? Em muitos casos, o maior ganho ambiental não resulta apenas da forma como transportamos, mas também da capacidade de evitar operações que não acrescentam valor. Esta lógica aplica-se igualmente aos armazéns, centros logísticos, terminais e plataformas operacionais.
Muitas organizações têm vindo a compreender que as oportunidades de melhoria mais imediatas não estão necessariamente associadas a grandes investimentos – que, indiscutivelmente, terão de acabar por acontecer –, mas à capacidade de conhecer melhor os seus processos e consumos.
Uma utilização mais eficiente da energia, a adoção de equipamentos ajustados às necessidades reais da operação, a monitorização contínua dos consumos, a otimização dos períodos de funcionamento e uma manutenção preventiva e preditiva eficaz podem gerar ganhos significativos. Isoladamente, cada medida pode parecer modesta. No entanto, quando integradas numa abordagem consistente, estas medidas contribuem para uma redução sustentada dos custos, um aumento da eficiência operacional e uma vantagem competitiva difícil de igualar.
A energia é um dos exemplos mais evidentes desta transformação. Deixou de ser encarada apenas como um custo inevitável da atividade para assumir, cada vez mais, o papel de recurso estratégico, cuja utilização eficiente influencia diretamente a competitividade, a resiliência e a sustentabilidade das organizações.
Neste contexto, a informação desempenha um papel particularmente relevante. A logística atual produz dados em volumes que eram impensáveis há poucos anos. Hoje, é possível conhecer com precisão onde está cada ativo, como está a ser utilizado, quanto consome, quanto produz e qual é o seu impacto. Contudo, mais do que recolher dados, o verdadeiro desafio consiste em transformá-los em conhecimento útil para a tomada de decisão.
A tecnologia não substituirá a experiência e o conhecimento das pessoas e das equipas, mas permitir-lhes-á, cada vez mais, decidir com maior rapidez e rigor e com uma maior capacidade de antecipação.