Home Tecnologia Na biotecnologia, uma falha no procurement pode atrasar a ciência

Na biotecnologia, uma falha no procurement pode atrasar a ciência

5 Min
Read

📰 Fonte: Supply Chain Mag

No segundo episódio do podcast SupplyConnect by Conexus, que conta com a Supply Chain Magazine como media partner, Paula Sofia Ribeiro, Senior Procurement Manager da FairJourney Biologics, explica por que razão, na biotecnologia, uma falha de abastecimento pode atrasar semanas ou meses de investigação. Numa conversa com o Diogo Almeida Carneiro sobre risco, IA, fornecedores e posicionamento estratégico, a profissional defende um procurement mais próximo do negócio, mais relacional e com lugar à mesa da decisão.

Uma rutura de stock pode significar mais do que o atraso de uma encomenda. Numa empresa de biotecnologia, a indisponibilidade de um anticorpo, de uma linha celular ou de outro material crítico pode comprometer semanas ou meses de investigação. É neste contexto que o procurement é chamado a equilibrar eficiência, resiliência, risco e uma forte proximidade com as equipas científicas.

No segundo episódio do SupplyConnect by Conexus, Sofia Ribeiro, Senior Procurement Manager da FairJourney Biologics, é a convidada de Diogo Almeida Carneiro e partilha os desafios de gerir compras numa atividade altamente especializada, regulamentada e dependente de fornecedores capazes de responder com rapidez a requisitos muito específicos.

Com 17 anos de experiência na área, a profissional passou pelo retalho e pela indústria antes de chegar à biotecnologia. Um percurso que lhe trouxe rigor operacional, disciplina de execução e uma relação exigente com a disponibilidade dos produtos.

“Eu tive um chefe na Sonae que me dizia que rutura é crime”, recorda. No retalho, a indisponibilidade de um produto significava defraudar as expectativas do cliente que o procurava no linear. Na biotecnologia, as consequências podem assumir uma dimensão muito diferente.

“Aqui estamos a falar de um projeto que, se não receber aquele produto, um anticorpo ou uma linha celular naquele preciso momento, pode atrasar a investigação científica em semanas, meses, talvez até anos.”

A mudança de setor obrigou Sofia Ribeiro a adaptar a sua forma de trabalhar. No retalho, estava habituada a gerir categorias e a assumir diretamente decisões sobre os produtos que seriam incorporados na oferta. Na biotecnologia, o conhecimento técnico pertence às equipas científicas e o procurement assume sobretudo um papel de facilitador.

“A equipa científica tem um projeto para levar a cabo e precisa de alguém que ajude a concretizá-lo. É aí que entra a equipa de procurement.” O objetivo é compreender os requisitos, interpretar as necessidades e procurar no mercado as soluções que permitam concretizar os projetos. A decisão deixa, assim, de ser individual e passa a resultar de uma articulação estreita entre compradores, investigadores e restantes áreas da organização.

“Tive de desaprender essa parte de tomar decisões sozinha. Trabalho com uma equipa de pessoas altamente especializadas. Os técnicos são eles e a minha função é facilitar e perceber o que precisam para levar a cabo a investigação.”, realça.

Esta passagem para um setor científico implicou também reconhecer os limites do próprio conhecimento. A experiência em sourcing, negociação e gestão de fornecedores permanece válida, mas não substitui a necessidade de aprender sobre os materiais e serviços que estão a ser adquiridos. Por isso, diz que no início é preciso escutar mais do que opinar.

No seu entender, o domínio técnico do produto constitui uma vantagem, mas não é uma condição prévia para exercer a função. O conhecimento vai sendo construído através da investigação, das perguntas e da colaboração com especialistas.

A posição do procurement dentro de uma organização depende, em primeiro lugar, do papel que a própria gestão lhe atribui. A definição tem de partir do topo e clarificar até onde a função deve intervir e que responsabilidades deve assumir.

Numa empresa de biotecnologia, a área não detém necessariamente a decisão técnica. Cabe-lhe, porém, assumir a necessidade do requisitante como se fosse sua, procurar alternativas e assegurar que o mercado responde às exigências do projeto.

“O procurement é um facilitador que vai à procura da melhor solução para os problemas dos requisitantes. É preciso saber ler o negócio, saber ler as suas dores e levá-las muito a sério.”, lembra Paula Sofia.

Este trabalho exige capacidade para apresentar alternativas, explicar as condições de mercado e ajudar as equipas internas a tomar decisões mais informadas. Exige também rapidez: muitas das respostas têm de ser encontradas em 24 ou 48 horas: “A cadeia tem de estar muito bem definida e cada pessoa tem de saber qual é o seu papel e a sua responsabilidade naquele pipeline.”

A proximidade com os fornecedores é um dos pilares dessa capacidade de resposta. Embora a inteligência artificial possa assumir tarefas transacionais e apoiar análises, Sofia Ribeiro considera que a relação humana continuará a ser determinante nas situações mais complexas. Há funções operacionais e estratégicas em que o fator humano vai fazer toda a diferença. As parcerias com fornecedores fazem-se entre pessoas.

A realidade da biotecnologia nem sempre permite trabalhar com várias fontes de abastecimento. Alguns produtos são altamente especializados, têm poucos fabricantes ou não podem ser substituídos sem novos testes e validações: “Às vezes perguntam se temos o fornecedor A, B ou C. Às vezes não temos. Temos o fornecedor A e é A ou A.”

No entanto, para a Senior Procurement Manager, esta dependência não é necessariamente negativa, desde que seja conhecida, avaliada e gerida. Obriga, porém, a construir relações sólidas, manter uma comunicação regular e garantir que os temas críticos permanecem visíveis.

Leia a notícia completa em Supply Chain Mag →