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O planeamento vai deixar de planear?

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📰 Fonte: Supply Chain Mag

António Crespo de Carvalho, profissional com experiência em áreas híbridas de supply chain, operações, analytics e data, analisa o impacto da inteligência artificial no planeamento e no equilíbrio entre oferta e procura. A partir do percurso desenvolvido nos últimos sete anos na Amazon e na Cloudflare, projeta a forma como esta função poderá vir a ser orquestrada no futuro.

As cadeias de abastecimento têm-se tornado progressivamente mais complexas e interligadas, fruto da globalização, da especialização e das vulnerabilidades que daí resultam. Apesar de impactar transversalmente os diferentes intervenientes da cadeia, este fenómeno afeta de sobremaneira as empresas que entregam o produto ou serviço ao cliente final, principalmente em indústrias com baixos custos de troca. É claro nos casos do e-commerce ou do retalho alimentar; é talvez menos óbvio nos de software ou utilities. Consumidores mais informados e exigentes fazem hoje escolhas mais intencionais, impondo uma disponibilidade constante a um preço competitivo.

É no desenho desta nova experiência de cliente que as áreas de demand & supply – ou S&OP, quando em coordenação com as áreas comerciais, de operações e financeiras – se assumem como estratégicas para organizações com delivery.

Concretizando com exemplos: três filhas namoram um smartwatch durante meses e decidem comprá-lo como oferta para o Dia da Mãe, mas este apresenta uma promessa de entrega três dias depois da celebração; o novo dono de um negócio de restauração encomenda um frigorífico cuja entrega é adiada por duas semanas.

No caso das irmãs, não voltarão a confiar na marca e/ou na plataforma. Quanto ao empreendedor, deixará de encomendar naquele e-commerce e exigirá uma compensação pelo atraso. Em ambas as situações, a origem é a mesma: a balança entre a procura estimada e a oferta disponível pende para o lado errado em alguma fase da cadeia de valor – primeiro no fulfillment e depois em logistics/delivery.

A inteligência artificial irá mudar o paradigma desta função. Cálculos manuais e repetitivos de cobertura de stock, a construção e o ajustamento da matriz de risco de fornecedores, a repescagem de fornecedores para linhas de produto críticas ou a comunicação informal para acompanhar o status de inbound e outbound de mercadoria são processos que poderão ser progressivamente desempenhados por agentes de IA.

A fiabilidade e o processamento eficaz dos dados vão obrigar gestores e operacionais das áreas de demand & supply a mudar o foco do seu trabalho. Da construção de business cases customizados a decisões semi-automáticas, de análises retrospetivas a alinhamentos prescritivos e do trabalho em silos a uma orquestração multi-agente, os desafios desta área implicarão uma mudança transversal na forma de trabalhar.

Diversificando as fontes de dados – desde redes sociais a eventos até à jornada online do cliente, passando pelo clima ou pela interação do cliente na aplicação – e encurtando os ciclos de planeamento, será possível aumentar o nível de confiança na estimativa da procura.

Desta forma, aumenta-se a capacidade de interpretar o output, ajustando-o ao tipo de cliente, ao contexto de compra ou ao contributo para o ciclo de vida do mesmo. Em paralelo, agentes consomem esta informação e alertam o seu gestor para riscos de rutura de stocks / capacidade de entrega, antecipam falhas de fornecedores com base em dados históricos não estruturados e propõem decisões ao nível de trade-offs clássicos, como o cost-to-serve ou o nível de serviço ao cliente.

O profissional passará, assim, a decidir mais e a executar menos. A pensar mais e a corrigir menos. A colocar-se no lugar do cliente na tomada de decisão e a depender menos de leituras exclusivamente assentes no histórico.

A automação não eliminará o planeamento. Torná-lo-á, isso sim, mais eficiente, menos pesado e capaz de funcionar (quase) em tempo real.

O verdadeiro valor deixará de estar apenas em produzir o plano; estará em saber quando confiar nele, quando o contrariar e qual o nível de risco a aceitar em cada decisão.

O futuro do planeamento automático não será um futuro sem planeadores. Será um futuro em que planear significará cada vez menos prever o que vai acontecer e cada vez mais decidir o que fazer quando a realidade se desvia da previsão!

António Crespo de Carvalho, Especialista em operações & analytics

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