📰 Fonte: Supply Chain Mag
A antecipação de novas tarifas norte-americanas está a atrair volumes de cobre para os Estados Unidos e a reduzir a disponibilidade do metal na Europa e na Ásia. Ao mesmo tempo, as sanções europeias sobre metais russos, a estratégia comercial chinesa e as perturbações no Médio Oriente estão a alterar os fluxos internacionais de matérias-primas industriais.
O preço deixou de ser o único indicador relevante no mercado dos metais industriais. A localização dos stocks, a origem do material, o momento em que entrou no território aduaneiro e a rapidez com que pode ser colocado no mercado ganharam peso nas decisões de compra e aprovisionamento.
O cobre é o exemplo mais evidente desta mudança. A 20 de julho, a cotação de referência na London Metal Exchange (LME) encontrava-se nos 13.633 dólares por tonelada, sustentada pela redução das existências e pelos sinais de recuperação da procura chinesa.
Os stocks de cobre nos armazéns aprovados pela LME tinham diminuído 24% desde o final de maio, para 295.275 toneladas. Mais significativo ainda: 56% desse volume, equivalente a cerca de 166 mil toneladas, já estava reservado para entrega e deveria, por isso, abandonar o sistema de armazenagem da bolsa, segundo dados da LME citados pela Reuters.
Uma parte importante do cobre retirado dos armazéns da LME tem seguido para os Estados Unidos, refere a agência noticiosa, onde operadores e fabricantes estão a antecipar o possível agravamento do regime tarifário norte-americano.
A Casa Branca prevê a possibilidade de aplicar uma tarifa de 15% ao cobre refinado a partir de janeiro de 2027, que poderá aumentar para 30% em 2028. Produtos de cobre e vários derivados já estão abrangidos por direitos aduaneiros adicionais.
Esta expectativa criou um incentivo para colocar metal em território norte-americano antes da eventual entrada em vigor das novas taxas, aumentando os stocks nos Estados Unidos e reduzindo a disponibilidade noutras regiões.
Europa e China competem por menor disponibilidade A deslocação de cobre para os Estados Unidos ocorre numa altura em que os inventários chineses também estão em forte queda. Em meados de julho, os armazéns monitorizados pela Shanghai Futures Exchange tinham 79.909 toneladas de cobre, menos 80% do que em meados de março e o nível mais baixo desde agosto de 2025, de acordo com dados citados pela Reuters.
A redução dos stocks fez aumentar o prémio de importação de cobre através de Yangshan para 100 dólares por tonelada, o valor mais elevado em 14 meses. Este indicador, utilizado para avaliar a procura chinesa por metal importado, mais do que duplicou desde o início do ano.
Apesar desta recuperação recente, as importações líquidas chinesas de cobre refinado diminuíram 13% no primeiro semestre de 2026, para 1,374 milhões de toneladas, segundo dados do World Bureau of Metal Statistics analisados pela mesma fonte. Os preços elevados limitaram as compras, sobretudo nos primeiros meses do ano, ao mesmo tempo que os operadores chineses passaram a competir com os Estados Unidos pelos volumes disponíveis no mercado internacional.
O resultado é um mercado mais fragmentado geograficamente, no qual o mesmo metal pode apresentar custos muito diferentes consoante esteja armazenado nos Estados Unidos, na Europa ou na Ásia.
Sanções aumentam exigências sobre origem e armazenagem Na Europa, as sanções aplicadas aos metais russos introduziram outra camada de complexidade nas cadeias de abastecimento. Desde 25 de julho, está proibida a compra, importação ou transferência para a União Europeia de cobre e cobalto de origem russa, depois de terminado o período transitório previsto no 20.º pacote de sanções, de acordo com informação divulgada pela LME.
A LME passou também a exigir declarações de conformidade para o registo destes metais nos seus armazéns europeus. Embora a bolsa indique que não era registado cobre ou cobalto russo nesses armazéns há mais de um ano, as novas regras reforçam a importância da rastreabilidade, da data de importação e da documentação associada a cada lote.
No caso do alumínio russo, mantém-se um regime transitório limitado até ao final de 2026, findo o qual a importação para a União Europeia ficará proibida. Para as empresas compradoras, isto significa que a avaliação do custo de aprovisionamento passa a incluir, além da cotação, a origem do metal, os direitos aduaneiros, os custos energéticos e de transporte, a documentação de conformidade e a disponibilidade de armazenagem.
Alumínio condicionado pelo Médio Oriente No alumínio, a geopolítica está a afetar simultaneamente a produção e a logística. A perturbação das exportações do Golfo, provocada pelo conflito no Médio Oriente e pelas restrições à navegação, aumentou a pressão sobre os consumidores europeus e norte-americanos.
A região é responsável por cerca de 9% da produção mundial de alumínio primário. As dificuldades de passagem pelo estreito de Ormuz levaram alguns produtores a alertar para atrasos, reduzir operações ou declarar situações de força maior.
Em março, perto de 100 mil toneladas de alumínio foram reservadas para retirada de armazéns da LME na Malásia, numa operação destinada a responder à procura de clientes europeus e norte-americanos, segundo fontes do mercado citadas pela Reuters. Na mesma altura, a percentagem de alumínio da LME já reservada para entrega subiu de 9% para cerca de 40%.
A China, por seu turno, está a procurar compensar parte desta menor disponibilidade. Embora as exportações chinesas de alumínio primário estejam condicionadas por uma tarifa de 30%, as vendas ao exterior de produtos semitransformados, como chapas, folhas e placas, cresceram 15% no primeiro semestre de 2026, segundo dados do World Bureau of Metal Statistics. Os volumes aumentaram em todos os meses desde o início do conflito no Irão, em fevereiro.