📰 Fonte: Supply Chain Mag
Crescer sem margem é o verdadeiro risco das empresas, advoga o fundador & CEO da Delivery Express, Francisco Castanheira, num artigo de opinião em que defende a necessidade de a logística mudar o foco. O que pode implicar dizer não a maus contratos, em nome da sustentabilidade financeira do negócio.
Durante muitos anos, o sucesso no setor da logística foi sinónimo de crescimento. Mais clientes, mais rotas, mais volume e mais faturação. Mas, a realidade operacional tem demonstrado algo bem diferente, pois crescer sem margem não é crescer, mas apenas adiar problemas. Em muitos casos, é mesmo acelerar o caminho para a destruição do negócio.
Um dos principais fatores deste fenómeno é a guerra de preços. Num mercado altamente competitivo, a tentação de ganhar contratos através do preço mais baixos é enorme. O problema é que, quando o preço se torna o único critério de decisão, a margem desaparece e, sem ela, não há capacidade de absorver imprevistos, investir em melhoria contínua ou, simplesmente, garantir a sustentabilidade financeira do negócio. A logística não vive apenas de viaturas a circular, mas também (e sobretudo) de planeamento, controlo e de eficiência. Tudo isto tem custos.
A este cenário somam-se contratos mal pensados, nos quais muitos operadores aceitam novas operações com base em pressupostos otimistas, cálculos incompletos ou pressão comercial para “não perder o cliente”. O resultado são operações estruturalmente deficitárias desde o primeiro dia. Já vivemos internamente uma situação em que uma operação nos fez perder cerca de 12.000 euros num único mês, apenas porque foi mal calculada ao nível dos custos de distâncias e rotas. Não houve acidente, não houve crise externa. Houve, sim, uma falha de análise com preço demasiado alto.
Este tipo de erros é particularmente frequente quando são criadas operações novas para responder a picos de volume, como períodos sazonais, campanhas ou reforços temporários. A urgência em dar resposta ao cliente leva, muitas vezes, a decisões rápidas e pouco sustentadas. Mas cada nova operação, mesmo que temporária, tem de ser avaliada com o mesmo rigor de uma operação permanente. Caso contrário, o risco é o de transformar volume adicional em prejuízo adicional.
Neste contexto, a eficiência operacional assume um papel central. Uma operação logística só é verdadeiramente boa quando é produtiva, tanto para o transportador como para o cliente. Produtividade significa rotas bem desenhadas, cargas equilibradas, tempos de espera controlados, recursos dimensionados à realidade. Uma operação ineficiente pode até parecer barata no papel, mas rapidamente se revela cara no terreno.
Importa também desmistificar a ideia de que o cliente ganha sempre com preços mais baixos. A médio prazo, operações sem margem refletem-se em falhas de serviço, menor fiabilidade e desgaste da relação. Sustentabilidade financeira e qualidade operacional estão intimamente ligadas. Não há serviço de excelência sem empresas saudáveis.
O setor da logística precisa, por isso, de mudar o foco. Crescer continua a ser importante, mas crescer com margem é essencial. Dizer “não” a maus contratos é, muitas vezes, um ato de gestão responsável e temos de o fazer. Analisar custos reais, questionar pressupostos e colocar a eficiência no centro das decisões não trava o crescimento, mas protege-o. O verdadeiro risco não é o de crescer devagar, mas sim crescer sem margem e não dar conta de que o problema só aparece quando já é demasiado grande para o corrigir.
Francisco Castanheira, fundador & CEO da Delivery Express